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ECOLOGIA/COMUNIDADE DE DESTINO

Mauro Carneiro dos Santos *

Em 1869, o cientista alemão Ernst Haeckel criou o termo Ecologia para designar a parte da biologia que estuda as relações entre os seres vivos e o meio ambiente onde vivem, além da distribuição e abundância destes seres. A etmologia da palavra vem do grego "oikos" que significa casa e "logia", estudo, reflexão. Logo, seria o estudo da casa, ou de forma mais genérica, do lugar onde se vive. Modernamente se define Ecologia como o estudo das interações dos seres vivos entre si e com o meio ambiente. É uma área específica do conhecimento humano que trata do estudo das relações dos organismos, uns com os outros e com todos os demais fatores naturais e sociais que compreendem seu ambiente. Ecologia é um nível superior de pensamento, onde tudo está relacionado com tudo, inclusive com as soluções. Félix Guatari considera três tipos de ecologia: a do meio ambiente, a das relações sociais e a da subjetividade humana.

Muitos foram os conceitos práticos e filosóficos (ecosofia) adotados durante as discussões sobre a ecologia que, a princípio adotava um caráter antropocêntrico, evoluindo para a chamada ecologia profunda de natureza geocêntrica do norueguês Arn Naess. De especial importância foi a introdução do pensamento sistêmico, criando as novas concepções de comunidade e rede para as interações dos sistemas vivos. Sistemas vivos são totalidades integradas, cujas propriedades essenciais surgem das interações e da interdependência de suas partes.

A consciência ecológica está tomando conta das mentes humanas já de algum tempo, mas foram as catástrofes mundiais como a bomba de Hiroshima e Nagasaki e o desastre de Chernobil que desencadearam uma consciência de comunidade de destino onde todos os humanos estão sujeitos às mesmas ameaças fatais, das armas nucleares aos perigos da biosfera como o efeito estufa a destruição da biodiversidade, a esterilização dos oceanos, a desertificação, poluições e a globalização de dominação, colonização e exploração.

O contracenso na história é que toda esta consciência e preocupações ecológicas acontecem em um mundo cada vez mais pontuado por forças de repulsão e desagregação entre os povos, geradas pela intolerância com a diversidade cultural, pela discriminação racial, religiosa e a terrível relação de poder existente.Como analisado pelo pensador francês Edgar Morin, há nações com suas comunidades de identidade e atitudes que despertam o sentimento de fraternidade mística dos "filhos da pátria" perante os outros considerados inimigos, as questões raciais, por vezes exarcebadas pelo mito matripatriótico, com sua falsa verdade biológica gerando o ideal de purificação étnica, os homicídios causados pelas religiões que inspiram amor entre seus crentes e ódio para os desviantes, os heréticos, os infiéis. A Terra é a totalidade complexa físico-biológica-antropológica, onde a vida é uma emergência da história da Terra e o homem uma emergência da história da vida terrestre. Somos, portanto, filhos da Terra e, como seres com consciência, devemos cada vez mais, desenvolver a tão comentadada sociedade mundial exercendo uma cidadania terrestre ou planetária. Somos cidadãos do mundo. O planeta Terra, pela teoria de Gaia, é um sistema vivo e, desta forma, somos integrados a ele, interferindo nas suas propriedades através das nossas interações e interdependência. Somos, como sistema vivo, organismos formados por organismos menores, dentro de um organismo maior. Todos os organismos dotados de uma considerável autonomia, mas harmoniosamente integrados no funcionamento do todo. Somente dotados desta consciência podemos desenvolver o conceito de comunidade de destino, sociedade mundial, cidadania terrestre ou planetária, uma noosfera de que trata o teólogo e paleontólogo Teilhard de Chardin, ou uma inteligência coletiva que o pensador francês Pierre Lévy acredita possa ser alcançada com o recurso da internet. Somos conseqüência de uma dinâmica cósmica universal e dependente dela e, por isto, incapazes de garantir a preservação da vida na Terra. Temos no entanto (nós os humanos ecologicamente conscientes e cidadãos terrestres ou planetários) que assumir o nosso destino comum de viver uma aventura desconhecida e, ao menos, tentar evitar a antecipação da finitude terrestre, melhorando a qualidade de vida no e do nosso planeta.

* Mauro Carneiro dos Santos é ex-Professor da UFRPE e Sócio Fundador da Âncora. Membro das Academias: Pernambucana de Ciências e Pernambucana de Ciência Agronômica.

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