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HUMANOS SUBSTITUEM ROBÔS

Wilame Jansen *

Telefonistas de carne e osso substituíram um sistema informatizado de atendimento a clientes numa grande empresa americana de informática. Essa jóia de novidade da era da modernidade foi noticiada pela revista Veja. A notícia acrescenta que os erros de informação foram drasticamente reduzidos e que 97% dos clientes aprovaram a medida. E agora? Será o bonde de volta? Gostaria, mas não acredito. Aprendi que todos os bondes vão, mas voltam, menos o da história.

A idéia criativa da empresa (logo americana, logo de informática) soa como esquisitice, diante de um mundo perplexo com a velocidade crescente do desemprego tecnológico. Já se fala na sociedade sem emprego, na era do pós-mercado. Nas livrarias, multiplicam-se as teses sobre "o fim dos empregos". Uma delas, dramatizando a situação, cita a ocorrência do primeiro romance totalmente escrito pelo computador. Outra, chega a apontar as primeiras profissões tachadas a desaparecerem da face da terra. Estão lá secretária, telefonista, recepcionista, vendedor, caixa de banco, bibliotecário, gerente e chefias intermediarias (além da trabalheira que vão ter os sindicatos, lamento pelos meus amigos, a grande maioria, feito eu, chegada a uma chefia intermediária).

Há quem fique dizendo que o desemprego tecnológico é feito globalização, isto é, não é de hoje, começou faz tempo. A gente sabe, só que antigamente os desempregos ocorridos num setor eram compensados com oportunidades de trabalho nos outros. Foi assim que os robôs da agricultura transferiram homens para a indústria e os de lá para os serviços.

Agora não. O robô substitui o homem nos três setores, simultaneamente, numa velocidade incrivelmente maior do que no passado. As estatísticas que se nos apresentam são estarrecedoras: há 50 anos, as pessoas empregadas na agricultura dos Estados Unidos representavam 60% da mão-de-obra disponível. Hoje, representam apenas 2,7%. Nos países desenvolvidos, o índice de desemprego anda por volta de 15%, com o agravamento de que 25% da força de trabalho estão ocupadas por apenas meio período.

A primeira pergunta que se impõe é: como evitar o desemprego tecnológico? E aí, como quase sempre ocorre, as respostas que se apresentam refletem as "velhas" posições ideológicas de direita e esquerda (Dinossauro, pode ser). A direita trabalha com o pressuposto de que os ganhos de produtividades decorrentes de novas tecnologias devem ser distribuídos sob a forma de dividendos aos acionistas e, no máximo, aos altos salários da elite dirigente.

A esquerda defende uma reengenharia, onde a redução da jornada de trabalho seja a forma de o trabalhador participar dos ganhos de produtividade. Diante de "o tempo livre que virá", a sociedade terá de escolher entre o desemprego ou o lazer.

Publicado no DIARIO DE PERNAMBUCO, coluna OPINIÃO, jan/1997.

* Wilame Jansen é Economista e Presidente da Âncora.

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